MINHA CARREIRA – A LINHA
DO TEMPO.
Na adolescência,
como é comum, desejei abraçar várias profissões. De Padre a músico, passando
por agricultor e radiotécnico. Quanto à profissão de advogado, sua referência
sempre me causava um misto de reverência e temor.
Lembro que por volta
de meus 8 ou 9 anos de idade, meu falecido pai saiu de casa para contratar
advogado a fim de recuperar crédito em tijolos, eis que fora lesado por empresa
do ramo. Angustiado e sem noção de horário, pois a hora somente a sabíamos
ligando o rádio, subi o cerro até a metade do caminho entre nossa casa e o “estradão”,
por onde passava o ônibus, e somente sosseguei quando vi meu pai chegando.
Na minha inocência,
quem tratasse com advogado corria sério risco de ser preso!
Mas, aos 15 anos de
idade vivi uma experiência pessoalmente definitiva. Nossa professora de
Educação Moral e Cívica (Professora Marli Dockhorn Sawitzki), numa das séries
do Curso Ginasial, promoveu um Júri Simulado sobre o Divórcio, com acusação e
defesa, óbvio.
As “bancas” foram
sorteadas, a fim de que o processo fosse mais democrático (embora o conteúdo da
disciplina fosse o de justificar a ditadura, o que provou a coragem desta
professora). Fui sorteado para compor a banca da defesa do Divórcio, juntamente
com dois colegas filhos da elite de Três de Maio e um cunhado de conhecidíssimo
advogado desta cidade.
Estes logo trataram
de combinar os trajes (casaco e gravata, casaco pelo menos, ânsia esta que me
faz lembrar a preocupação máxima de nossos sempre renovados formandos: os
trajes, a festa, a pompa). Só que eu jamais havia vestido um casaco, até por
que não tinha um.
Na véspera do Júri
Simulado, angustiado, expus minha preocupação à minha mãe, que à falta de
qualquer outra solução deu-me a ideia de vestir um desproporcional casaco de
meu pai. E lá fui eu, carregando um casaco com o propósito de somente vesti-lo
caso não me restasse outra solução.
Para a questão
central, nuclear, qual seja o conteúdo da matéria em debate, dedicara-me eu a
vasculhar as velhas revistas Manchete, que nosso falecido pai pegava junto ao
descarte do Bazar Garrafa para que nos aculturássemos. Mas, defender o Divórcio,
naqueles idos dos anos 60, implicava em quebrar dogmas sociais, éticos e
religiosos, portanto correspondia a caminhar por terreno perigoso.
Mas, caso fosse
necessária a minha intervenção, minha tese estava selecionada.
Ao tomarmos assento
à nossa bancada, meus ilustres pares exigiram que eu vestisse o casaco, grande,
desproporcional e que me caía como a roupa de um espantalho. Mas, que outra
saída me restava?
E lá estava eu,
acanhado, o “colono” da banca, assistindo o pronunciamento da acusação e depois
a colocação da palavra à disposição da defesa do Divórcio. Os titulares de
nossa banca foram sucumbindo, um a um, pois ao iniciarem a leitura de seus
arrazoados, logo percebiam que seu óbvios argumentos já haviam sido
antecipadamente derrubados pela acusação.
Restei eu, que,
gaguejando certamente, tremendo por certo, e acuado, passei a expor a minha
tese: Se um casamento é abençoado por Deus, e se ele ligou os cônjuges e ninguém os
poderia separar, dadas as qualidades deste Ser, seguramente Ele não teria
abençoado uma relação em que um ou os dois cônjuges não mais seguiam os
preceitos Divinos, ou tivessem casado já com má intenção.
Ou, se a abençoou, a
bênção teria sido levantada, abrindo espaço para a dissolução do matrimônio.
Aberto espaço para a
réplica, seguiu-se a recusa da palavra, deixando certa a inexistência de
condições para responder à tese da defesa.
Assim como percebi e
estupefação de meus pares, e dos colegas em geral, pois estes jamais
imaginariam que surgisse tal ângulo inovador, não, pelo menos, de minha parte,
também percebi o quanto é útil tirar as viseiras, para ampliar o raio da visão
acerca dos fatos, de qualquer fato.
E decidi ser
advogado!
A existência de uma
Professora democrática, em tempos de Ditadura, e a ânsia pelo exame
multifacetário de uma questão que parecia rígida e pétrea (mas não era),
direcionaram-me à advocacia, atividade que exerço a exatos 34 anos.